O assessor de relações institucionais da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada do Exército, em Natal, coronel Erland Mota, dava as primeiras informações, anteontem, sobre a atuação das Forças Armadas na cidade, enquanto tentava resumir: “Olha, vai funcionar exatamente como da outra vez, em agosto”. Como naquela ocasião, a articulação nas ruas da facção Sindicato do Crime (SDC) forçou a volta dos homens de farda camuflada ao patrulhamento da capital.

Reagindo a uma transferência de 220 integrantes, após a chacina de 26 presos na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na Grande Natal, o SDC deflagrou ataques pela capital e dez cidades do interior, com ônibus queimados e bases da polícia alvejadas, e voltou a demonstrar força, mesmo acuado pelos rivais do Primeiro Comando da Capital (PCC), responsáveis pelo massacre dentro do presídio.

Mesmo com o reforço do Exército nas ruas, um carro foi incendiado na madrugada de sexta, no bairro de Felipe Camarão, zona oeste. Ninguém foi preso. Em negociação com órgãos de segurança, empresas e funcionários do transporte público haviam se comprometido a voltar a circular, mas com a frota reduzida.

Nem duas operações, deflagradas pela polícia e pelo Ministério Público no ano passado, com a transferência de membros para presídios federais, representaram abalo significativo à estrutura da organização. Especialistas veem esse fator com preocupação, uma vez que o cenário de insegurança pode repetir-se mesmo com o eventual controle de Alcaçuz, rebelada desde a semana passada.

Mensagens
Do celular apreendido em agosto de 2016 de João Maria dos Santos de Oliveira, o João Mago, apontado como integrante da cúpula da facção, foi identificado que o modo de agir é o mesmo de agora. Mensagens anexadas à denúncia criminal mostram a comunicação dele com um preso, em que diz: “Parceiro, usa a estratégia. Não fica mandando ódio, não, dizendo que vai fazer as coisas porque eles já ficam esperando. “Tem de chegar e fazer. E tem de ser só órgão público”.

As mensagens mostram ainda a articulação para aquisição de material incendiário, munições e o planejamento detalhado dos pontos a serem atacados. Oliveira foi transferido para presídio federal em agosto. Segundo a Polícia Civil potiguar, as investigações relativas aos ataques mais recentes já mostraram a difusão de ordens tomadas a partir da transferência de presos em Alcaçuz.

Na quarta-feira, em Parelhas, a cerca de 250 quilômetros da capital, três homens foram presos após atacar um veículo de transporte público. Os investigadores encontraram ordens de ataque ao Centro de Detenção Provisória e à delegacia móvel. Na sexta, o irmão de um detento foi preso após incendiar um ônibus em São Paulo do Potengi, a 90 km de Natal.

O ex-secretário nacional de Segurança Ricardo Balestreri questiona a efetividade do reforço militar e das políticas do Estado na área. “São soluções desesperadas para momentos desesperadores. Mas já tivemos essa mesma intervenção em agosto e estamos tendo agora diante de um fenômeno similar. Quantos meses mais vamos suportar até o Exército voltar de novo para as ruas de Natal?”

Ele explica que o Rio Grande do Norte se assemelha a outros Estados na precariedade do sistema prisional, mas se mostra especialmente ineficaz na contenção desses distúrbios. “Aqui, se está tomando a dianteira no sentimento de impotência da população e no desespero do governo. A gestão bate cabeça e parece não encontrar saída”, disse.
Balestreri, que acompanhou de perto a apresentação dos projetos do governador Robinson Faria (PSD) no início da gestão, disse estar decepcionado com a pouca evolução notada. “Aqui, se faz mais do mesmo em nome de um conservadorismo. O governador foi conhecer algumas experiências bem-sucedidas de polícia comunitária, por exemplo, mas acabou não implementando. Os sonhos foram ficando pelo caminho”, afirmou.

Força
O Sindicato do Crime formalizou a fundação em 27 de março de 2013, conforme seu estatuto, cujas cópias foram apreendidas em operações policiais. O conteúdo se assemelha a facções como o PCC e, sob o lema de “paz, liberdade, igualdade e justiça”, prevê disciplina à “família”, pagamentos mensais para o caixa da organização, “guerra contra os grupos de extermínio” e proibição de uso de crack.

Teria sido o preço mais alto das “mensalidades” pagas pelos integrantes do grupo que levou ao racha com o PCC. Os potiguares, que cobram R$ 100 de quem está preso e R$ 200 de integrantes soltos, reclamavam que as ordens dos paulistas contra os inadimplentes eram excessivamente severas. Para não responder também a outros Estados, ousaram desafiar a então hegemônica facção paulista. “As agressões, expulsões e mortes dentro dos pavilhões e seguir cegamente as ordens de São Paulo fizeram muitos membros do PCC abandonar a facção e passar para o Sindicato”, descreve o Ministério Público em uma das denúncias oferecidas contra o grupo.

Na linha de comando, que é também tradicional no grupo paulistas, a facção potiguar adota regionalismos para classificar como “vaqueiro” o traficante preso que recruta olheiros e “aviões” para a operação da aquisição e transporte da droga, assim como para designar aquele que está na linha de frente, praticando assaltos para o caixa da organização. As transferências para presídios federais forçaram mudanças no conselho da facção, mas não interromperam a atuação do grupo no crime. Descrevem os promotores que a comunicação da cúpula com os que ficaram no Estado é feita pelas “cunhadas” – nome dado a mulheres de membros da facção -, que passaram a acompanhar o andamento dos negócios.


Estadão

Volta do Exército expõe força do Sindicato do Crime no RN

Marcadores:

Postar um comentário

Author Name

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.