Que será de Barack Obama assim que deixar a Presidência? Ao contrário de outros ex-presidentes, que costumam se recolher a suas bibliotecas e fundações, ele deu a entender em sua última entrevista coletiva que, apesar de precisar de um tempo para a família e de não ter intenção de concorrer a nenhum cargo, não abandonará de todo a política no governo Donald Trump.

“Quero escrever um pouco. Quero ficar quieto um pouco e não me ouvir falar tanto. Quero passar tempo precioso com minhas meninas”, respondeu ao ser questionado sobre o futuro. “Mas há uma diferença entre o funcionamento normal da política e alguns momentos em que nossos valores essenciais podem estar em jogo.”

Obama fez uma lista abrangente dos valores essenciais que o compeliriam a assumir um papel político: a ratificação de “discriminação sistemática”, obstáculos “explícitos ou funcionais” ao voto, medidas para silenciar o “dissenso ou a imprensa”, esforços para reunir e expulsar “crianças que para todos os efeitos práticos são americanas”. “Não significa que eu me candidataria de modo algum”, afirmou.

Seu partido sofreu uma derrota fragorosa nas urnas em novembro. Em comparação com o início do mandato em 2008, os democratas perderam a Presidência, o controle da Câmara e do Senado, doze governos e 959 representantes nas assembleias e senados estaduais. O Partido Democrata controlará o governo e as duas casas legislativas em apenas seis dos cinquenta estados.

Ainda assim, Obama deixa a Presidência com um índice de aprovação de 60%. É a marca mais alta desde seu primeiro ano de governo e quase o dobro dos 33% ao final do mandato de seu antecessor, George W. Bush. Apenas três presidentes registraram aprovações superiores ao sair do governo nas últimas oito décadas: Franklin Roosevelt (71%), Bill Clinton (65%) e Ronald Reagan (64%).

Trump promete desfazer em horas três quartos do legado de Obama. Quer revogar o programa de saúde Obamacare, suspender restrições ambientais impostas às indústrias do carvão e petróleo e rever normas tributárias, financeiras e fiscais. Para não falar em imigração, política de fronteira e acordos comerciais que exigirão mais tempo. A ambição dos republicanos que aderiram ao governo Trump é reduzir a pó a Era Obama.

“Mas a conclusão fatalista de que Trump pode apagar as conquistas de Obama é superestimada – talvez até completamente falsa”, escreve o jornalista Jonathan Chait em Audacity, livro que faz um balanço favorável do governo Obama, lançado na última terça-feira. É até possível que Chait esteja certo. O maior erro, contudo, é desprezar as bravatas de Trump e acreditar que seu governo será livre de conflitos.

Nada mais diferente de Obama do que Trump. O primeiro é um intelectual negro cosmopolita, de personalidade fria, avesso à política do enfrentamento, crente no papel do governo para resolver problemas sociais. O segundo é um empresário branco ressentido com a elite nova-iorquina, de personalidade explosiva, anti-intelectual, desconfiado da academia, crente em enfrentar e derrotar qualquer oponente em negociações.

Os Estados Unidos começam o governo Trump divididos em dois polos. Em sua campanha, ele não foi apenas enfático ao afirmar querer desfazer o legado de Obama. Para isso, apelou também a sentimentos há muito adormecidos e varridos para as margens da política americana – como se ser contra o “politicamente correto” implicasse ser tolerante com racismo, misoginia, islamofobia ou antissemitismo.

Como resultado, a polarização política, que nunca foi tão aguda, pode assumir outra forma. Em vez da “América pós-racial” idealizada por Obama, o país poderá se transformar, dependendo das medidas adotadas por Trump, em palco de conflitos explícitos de natureza étnica ou religiosa.

Mesmo que tal cenário não se torne realidade e o clima político arrefeça, é o legado de Obama, é seu nome na história que estarão em jogo a partir da posse de Trump. A derrota de Hillary Clinton transformou Obama em líder natural da oposição. Como ele próprio admitiu na entrevista de ontem, não será pequeno o papel que poderá ter de desempenhar no governo Trump.


G1 São Paulo

Qual o futuro de Obama?

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